Rua Vertical

November 19, 2008

Escrevi este texto como membro da C213 e na posição de co-editora da publicação da Braço de Ferro em Outubro de 2008. O projecto da publicação foi interrompido depois do texto ter sido terminado.
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A Caldeira 213 enquanto experiência comunitária, de organização “horizontal”, essencialmente não hierárquica, produziu uma cultura por direito próprio exterior às necessidades e condicionantes da cultura dominante.

1.
A experiência

Estive ligada à C213 desde o início e imaginei que escreveria um texto sobre a C213 totalmente independente da experiência de ter lá estado. Porque, suponho, que o risco de empobrecer o discurso sobre a C213 ao cair na experiência directa reflecte-se de duas formas, correlacionadas, nas decisões editoriais. Ficando de fora da escolha dos convidados, pessoas que poderiam dar um contributo fundamental só porque não estiveram lá, excluem-se desta maneira artigos sobre aspectos da C213 mais genéricos, tal como o sentido de comunidade e outros que poderiam ajudar a clarificar o que foi a C213. Por outro lado, quem esteve, poderá não ser o melhor comentador e cair na tentação de pormenorizar o irrelevante.

Revisitando alguns momentos da altura, comparando com a actualidade, e analisando o que ficou inegavelmente marcado na minha prática artística, penso que não posso contornar a experiência directa e, aliás, farei essencialmente uso dela, para reflectir sobre a experiência da C213 e para justificar a minha convicção de que esta se distingue das demais e se torna única no contexto português pelo seu programa.

2.
A publicação

Os depoimentos e comentários que surgiram a partir do mesmo acontecimento – e já passaram oito anos -, circunscrito no tempo e no espaço, parecem-me todos bastante interessantes do ponto de vista da diversidade e aprecio o interesse (justificado) em querer concretizar um documento que os registe. Aliás, este só faz sentido se a C213 se mantiver como experiência em permanente discussão, a partir da qual outros documentos, e até eventos comemorativos, deverão surgir. A C213 foi em si a comemoração dos seus princípios pelos seus elementos. Porque não voltar a reflectir nesses princípios?

O encerramento num único documento, ainda que compile várias faces da C213, é tão mortífero quanto uma possível institucionalização, com os seus instrumentos de reconhecimento, classificação e incorporação, de modo a neutralizar a força da experiência.

O oposto da diversidade poderia significar excesso de regulamentação e de controlo mútuo, tanto quanto de adequação a modelos sociais e culturais vigentes. Por conseguinte, a emoção, o encantamento, a incompreensão, o ser-se desafiado, o desanimo, a frustração, o delírio só poderiam ser consequência de uma experiência pessoal e colectiva não confinada aos limites reconhecidos (sociais e culturais). Daí a marca profunda.

3.
A comunidade

A C213 foi uma comunidade pouco regulamentada da qual faziam parte onze elementos – sendo eu o décimo primeiro, com estatuto de excepção, pagando uma cota menor e sem direito a usar o espaço como atelier – que fez da sua sede um espaço alugado na Rua dos Caldeireiros no Porto. Previamente a esta formação existia um grupo feminista – a Zoina – do qual faziam parte os quatro elementos femininos da C213 que se manteve em funcionamento durante toda a existência da C213. As Zoinas foram extremamente activas na organização de exposições e no debate de ideias, foram também essenciais na constituição da C213 como comunidade. Alguns dos outros elementos eram amigos próximos com quem já havia cumplicidades, os restantes vinham de áreas distintas da nossa, mas por alguma razão relacionavam-se com a actividade criativa principalmente por intermédio da palavra. O que nos relacionou a todos e de certo modo nos unificou numa imagem, foi acreditarmos, quase piamente, que o que vivíamos, ao fazer parte de uma experiência colectiva, era em si bastante importante e tinha uma valor próprio – como cultura. Quando muitas vezes se ouve a palavra “precariedade” atribuída às nossas produções, sinto que são ecos do tempo e consequência de interpretações a posteriori que não alcançaram precisamente o que estava em jogo naquele sítio e momento. Não penso que fosse realmente importante a concretização em particular de projectos, de exposições, etc, e da sua formalização, no sentido do “bem feito”, mas sim, de tudo isso acontecer – ali.

4.
O contexto

Com pouca diferença de idade, estávamos todos praticamente na mesma situação: prestes a acabar um curso de Licenciatura e a encontrar a incerteza do futuro fora da escola. Creio que sobrevoávamos entre os dois contextos, o escolar e o profissional, com a vantagem de não nos comprometer-mos demasiado com nenhum, vivíamos o momento ainda protegidos pela dúvida do caminho a seguir. A cena artística da cidade, com a qual não nos identificávamos, não era particularmente activa nem interessante. Existia a Casa e o Museu de Serralves, galerias comerciais, agentes do meio, mas, para nós, tudo isto estava ossificado e era distante. Essa estranha dualidade entre a proximidade e a distância – partilhávamos a mesma cidade, éramos estudantes de arte e considerávamo-nos artistas – pode-se justificar pelo seguinte: a arte que circulava não nos interessava de todo e o Museu era um lugar que perpetuava e complementava o estar na escola no sentido pedagógico. Portanto, não era muito presente o “inconsciente museológico” (VT) – os meandros de todo um sistema selectivo e hierarquizado, onde o Museu é o topo, encarado também como último momento ou mesmo túmulo (derradeiro espaço). O que sabíamos servia-nos precisamente para nos opor ou manter um postura critica – o que se pode confirmar pelas diferentes manifestações culturais inseridas no programa da C213.

5.
O espaço

A loja/cave que ocupávamos tinha sete pisos descendentes. Atravessava todo um lote; ia de uma rua à outra. No interior o espaço a dinâmica foi conversada e decidida entre todos, assim como tudo. Aconteceram exposições, encontros, workshops, projecções de vídeo, conferências, peças de teatro, e outras manifestações que nos habituamos a reconhecer como cultura, no entanto, parece-me coerente, dentro do que era o “espírito” (ou programa) da C213, entender como cultura tudo o que acontecia ali: dormir, comer, conversar, ter sexo ocasional, defecar e urinar, fumar, beber, etc. As intervenções na casa de banho do primeiro piso justificam precisamente isto – todas as actividades estavam inseridas num todo, num programa, de reavaliação da cultura em geral.

6.
O público

O publico era diverso e como nunca antes, nem depois, tive oportunidade de presenciar, nos melhores exemplos artísticos de integração de público não especializado e genérico, frequentavam a C213 pessoas de todo o género: da vizinha ao Director do Museu, do miúdo das redondezas que largou a escola precocemente ao estudante de sociologia da Faculdade de Letras da Universidade local. Ora, todos eles contribuíram para a C213, fizeram-na como experiência e, por isso, creio que todos foram membros da C213. O pagamento das cotas, ou seja a divisão da renda e custos de manutenção, não foram, e não devem ser, condição essencial para considerar quem fez parte da C213. Contudo, foi esta questão que sobressaiu na fase final da C213, “quem pagou?” E consequentemente, quem tinha legitimidade para assumir que fez parte.

7.
O desfecho

Foi controversa a associação que fiz destes espaços a “castelos de areia”. Volto a usá-la para expor a duração deste projecto e de outros semelhantes – inevitavelmente, terminam fisicamente sobrevivendo, mais tarde, na memória e, neste caso, no registo de depoimentos e em (poucas) imagens. Penso que não é com o objectivo de efectivar a experiência realizada senão mostrá-la como válida enquanto proposta e pelo caminho cravar um espinho na cultura dominante. E, se por um lado é de uma grande ingenuidade acreditar que podia ter durado mais tempo, para além das capacidades e limitações dos seus intervenientes, por outro lado é precisamente a curta duração que torna a experiência forte e duradoura na memória. Mesmo antes de uma possível decadência. Ora, a C213, não acabou numa data, num momento definido, foi terminando, dissolvendo-se. O pós-C213, foi um momento de individualização, de dissolução da comunidade.

O sistema artístico e o mercado que o assiste não contempla senão indivíduos e produções individuais. O próprio “fazer” colectivo, a várias cabeças e mãos, não cabe na franca realidade da Arte (salvo os casos de assistentes e colaboradores, mas aqui não existe partilha autoral ou mesmo a dissolução desta e salvo casos muito pontuais). Embora evidente, reforço a ideia que é preciso um autor, e que é a assinatura deste vende – condição essencial. Esta exigência está encoberta e muito mais num contexto como o nosso onde rareia o “profissionalismo” na Arte (alegro-me com isso!) e onde, à partida, se pode fazer tudo – embora nem tudo se enquadre. Ora, esta exigência foi reproduzida entre os pares, que anos antes teriam vivido no mesmo espaço a vigiar exposições, a lavar WCs, a despejar garrafas, a pregar um prego e a desentupir canos. É mais pela reprodução de procedimentos, considerados normais, do que por má-consciência que nos individualizamos e vigiamos mutuamente.

8.
A configuração

A rua dos Caldeireiros é acentuadamente inclinada, mas foi horizontal e mais tarde tornou-se vertical. Na sua horizontalidade, não me lembro dos nomes, de quem saiu por incompatibilidade, de quem entrou por simpatia pelo programa, quem propôs o quê e quem foi convidado; importava apenas fazer parte. O tornar vertical é o exercício de recitar nomes e de querer colocar-lhes datas à sua passagem e catalogar os restos, vestígios (alguém terá guardado certamente alguma coisa do espólio) e calendarizar as actividades. E não contribui esta publicação para isso mesmo? A que eu respondo com outra pergunta: tornar-se vertical não é uma inevitabilidade de ser?

9.
A Inconclusão

O que distinguiu então a C213 dos demais espaços que surgiram posteriormente (no conjunto, formou-se a “cena alternativa do Porto” largamente difundida e publicitada) foi o momento comunitário de crença numa cultura contra-cultura com valor próprio e que por consequência, procurou modelos novos em vez de repetir modelos antigos. Não pretendo aqui, nem o farei jamais, retirar o valor a qualquer outro espaço ou dinâmica que aconteceu nesta cidade, apenas elogio as diferenças.

Por último, dedico este texto em especial aos seguintes elementos da C213: ao X, que me influenciou não pela sua força, mas pela sua sensibilidade e coerência e à Y pela sua inteligência e criatividade. Agradeço a experiência a todos os elementos em geral – como expliquei, não distingo os fundadores, dos sócios, do visitante por um dia ou a vizinha a pedir um pacote de açúcar – e sugiro, que a C213 se repita, que se recorde, que tenha nova sede, novos elementos, nem que para isso seja necessários muitos anos.

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