Superstição!!!!

January 18, 2009

Com os ovos de ouro na mão e sem saber o que fazer com a galinha

A economia do artista é sigilosa tal como é e deve ser a economia pessoal de cada um. Justifica-se a quebra de sigilo e consequentes manifestações de denúncia quando os valores e a gestão dos mesmos não nos permitem viver, como indivíduos e artistas, dentro de certas condições consideradas dignas. Sabendo que o trabalho artístico faz parte de uma economia à parte, não deixa, no entanto, de depender de uma economia global na qual circulam bens e são prestados serviços e por isso não se pode alhear desta, remetendo-se totalmente para uma esfera autónoma onde prevalece o que chamarei de superstição.

Não admira por isso que esta questão, a económica, esteja a ser levantada um pouco por todo o lado, por pequenos grupos, mesmo em geografias onde poderíamos garantir que a situação estaria bem resolvida. É um sinal dos tempos que correm de que algo está a mudar quanto à concepção do que é ser artista e que consequentemente se repercute nas suas obras.

Os avisos que nos fizeram aos primeiros sinais de “vocação artística”, de que a escolha de ser artista corresponderia a uma vida futura miserável sempre me pareceram fazer parte de uma opinião popular transformada em fábula, que rapidamente se desvaneceria na fase adulta. Concluo agora que se mantêm por razões que continuam a ser exclusivamente supersticiosas bem como economicistas. Sendo que a superstição é a razão dos artistas e alguns crentes, e a economia a dos restante agentes que fazem parte do meio artístico e que o tornam rentável. É da superstição em que os artistas vivem que se alimenta a economia, numa relação de dependência.

Primeira superstição: acreditar que uma vida apaixonadamente sofrida nos inspira. O que não é totalmente mentira embora, o que nos pode inspirar pode ter outras origens que não a falta de condições consideradas básicas de sobrevivência. O comprometimento artístico pode ser assinalado por diferentes provas de bravura e persistência, na lista das quais as privações mais básicas devem ser retiradas.

Segunda superstição: levantar “problemas” é demonstrar pouco apreço pelas esporádicas oportunidades de trabalho que surgem e pelas condições dadas (!) que, aos serem denunciadas, podem prejudicar enormemente a carreira de qualquer artista – existe uma boa expressão para isto, “biting the hand that feeds you”. Pode acontecer que da próxima vez o mesmo artista que manifestou sintomas de mal estar não seja convidado, simplesmente porque no mercado há demasiados artistas que se prestam a trabalhar em piores condições.

Terceira superstição: o modo como é considerado quem reivindica e foge à consensualidade e como torna públicas as suas opiniões pode rotular o artista como insolente, rebelde e até indesejável em certos momentos, o que não é de todo grave uma vez que o artista sempre teve esta postura provocatória. Só se torna dramático quando afecta negativamente também a opinião que se tem sobre a sua obra. Um artista com uma forte visão sobre o mundo e da sua estética, quando esta não corresponde à esperada, é penalizado, uma vez que o mercado não aceita senão o facilmente integrável e cúmplice. Esta superstição causa no artista receios básicos que têm como consequência o excesso de protecção de si mesmo e da sua obra, acomodando-se às nuances caprichosas do mercado esperando cair (sempre) bem.

Quarta superstição: a necessidade de ser independente sob o pretexto de zelo pela liberdade criativa. Ora a independência económica é a única que permite criar livremente. E se não há uma dependência pelo trabalho realizado como artista, a solução é recorrer a outros trabalhos melhor remunerados ou a outras dependências – nomeando algumas: (heranças) familiares, Estado, mecenas/privados, rendas, empregos/biscates.

Quinta superstição: desinteresse por questões próprias do trabalho artístico. Mesmo no caso de um artista engagé, a preocupação poucas vezes recaí nas condições em que o faz. Detectando que algo está mal, é injusto ou carente de atenção, no meio social e político, este não reflecte na esfera própria. Falar, escrever, manter um discurso sobre o que lhe é próprio não é limitativo, aliás, é muitíssimo frutuoso explorar os limites ao ponto de os alargar num trabalho de escavação em profundidade ou conquistando terreno. E é deste lugar que escrevo o meu texto, de onde me localizo.

Sexta superstição: o artista acredita que é, porque produz objectos e momentos singulares, um ser excepcional e por isso, na sua excepcionalidade mostrasse alheado do retorno financeiro do seu trabalho. A possibilidade de ignorar o retorno financeiro parece-me tão interessante quanto ideal. Um despojamento saudável, uma vontade de ignorar, enquanto a abolição não se perspectivar (de novo), o capital. Mas, ainda como ser excepcional, carece, no sentido mais básico, de meios de sustentação. Ou seja, num limite, já não o pode fazer, sem entrar em contradição.

Por isto, muitos artistas vivem e mantêm-se debaixo de silêncio como talismã para sobreviverem. São supersticiosos. Acreditam na aposta que fizeram para aguentarem adversidade após adversidade. Se bem que muitos não aguentam, são frágeis, e sentem-se culpados por mais um conjunto de superstições. Entre elas, por não terem nascido numa família abastada que lhes permita ter tempo livre para desenvolverem uma actividade artística; porque não viverem num centro europeu ou norte-americano; por terem estudos a mais ou talvez a menos; entre outras que se traduzem em sorte ou azar. A sustentar esta forma de vida está a visão romântica de espera por um sucesso incerto.

A opinião generalizada dos restantes intervenientes que circulam no mercado, aos quais não parece mal falar de economia, lucro, aos quais a superstição não se aplica, é de que existem demasiados artistas e que é necessária uma selecção natural para se efectuar uma triagem – separar os bons e dos maus, o trigo do joio. Ora, eu colocaria a superstição ao serviço desta selecção. À excepção de uns tantos que voluntariamente enfiam a cabeça perto da lâmina da guilhotina e se comprometem com este tipo de questões que não deixam de assombrar o lado romântico do que é “fazer Arte”. Sendo a selecção dos artistas uma espécie de jogos sem fronteiras psicológico, entre o jogo da culpa e da ameaça exterior, podemos concluir que, se calhar, já se perderam bons artistas e grandes obras. E haveria outra solução? Naturalmente que sim, podia-se recorrer à qualidade intrínseca, profunda das obras como critério. Em vez de usar critérios abstractos, efémeros e circunstanciais que para o caso talvez sejam irrelevantes. No estado actual é fácil confundir o artista especialmente sensível e inteligente, herdeiro de uma sensibilidade única, com o artista vocacionado para vencer num mundo excessivamente violento e competitivo. Apregoa-se o primeiro mas vence o segundo.

Mas afinal o que um artista, qualquer um – mesmo o mais amedrontado com as consequências do que sente – pensa e deseja? Reunir condições a partir das quais possa ser ele mesmo. De entre elas, o tempo. E o tempo é a conquista essencial para se ser artista. Mas tempo é dinheiro! Falando agora concretamente da economia do artista, da gestão dos seus rendimentos e das suas despesas. A renda ou a prestação, o gás, o pão, os livros, a educação, etc, são pagos com empregos temporários ou permanentes, numa constante luta interna por não perder a identidade, esperando alcançar um equilíbrio entre as horas dispensadas no seu estúdio e as horas “perdidas” a desempenhar outra função que ora faz mal e sente-se culpado, ou faz bem e sente o mesmo.

Para ter tempo e produzir resta-lhe abdicar do que lhe é rentável e embarcar numa arriscada aventura da economia reduzida e talvez do desemprego. As soluções têm de passar pela análise real dos factos, independentemente de mais superstições que se possam acrescentar – têm que haver condições, para se ser o que se quer e se sente vocacionado e para poder através da sua obra acrescentar sentidos à cultura em que se insere. Se o mercado é hostil e a sociedade por seu lado, não se responsabiliza, e sendo o papel do Estado nulo ou pouco actuante a este nível – o artista supersticioso vê a sua vida e trabalho explorados.

Ressalvo o silêncio dos “exilados” que é diferente do dos supersticiosos de que falo. Os que se deslocam a esta ordem de coisas que não é a deles, a economia é a mesma, mas a disposição é outra. O silêncio não é cobardia ou confusão de ideias a descambar na superstição irracional que bloqueia, mas exercício de resistência.

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One Response to “Superstição!!!!”

  1. teresa Says:

    tudo isto é verdade
    a arte tem um valor flutuante entre o espiritual e o comercial; o primeiro é impalpável o segundo concreto e a fusão dos dois é um absurdo
    a avaliação monetária da arte faz parte da esquizofrenia generalizada em que vivemos ;podemos avaliar as horas de trabalho,o preço dos materiais usados mas quando se atribui uma maquia com muitos zeros a uma peça por causa do seu valor artístico então aí se confunde a crença com o conhecimento
    daí que a palavra superstição seja a mais correcta …só os factos contam;
    o artista enquanto cão vive numa extrema pobreza ou extremo luxo …os exageros pendem para os dois lados e continuam a escassear as soluções para que a arte que é tambem trabalho se defina como tal …safam-se os artistas mediáticos muitos deles de valor discutivel palpável ou não ,os artistas silenciosos talvez achem que nenhuma arte deveria ser vendida, apenas disfrutada o seu peso espiritual é avesso ao comércio …será isto romantismo ?
    talvez se tenha criado simplesmente demasiado lixo(especulação intlectual) em torno da arte


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