B(arbárie) F(ecunda)

April 12, 2011

1. Escrevo sempre de um lugar que me pertence e que defendo, ainda que seja construído das maiores incertezas no balancear das quais sinto o mais débil equilíbrio. Comprometi-me a disponibilizar-me a isto: a rondar anéis de fumo cada vez mais densos até que a imaginação já não reconheça os contornos do que está perante.

 

Pouco depois de reconhecermos vantagens na interrupção do projecto, foi endereçado à BF(1) um convite: pensar e desenhar um desdobrável para uma série de sessões sobre a “Economia e Arte”. Propus uma palavra: “Barbárie”. A necessidade (utilidade) foi mais forte do que a força da proposta – desculpo-me pela minha impotência/incompetência (não sei paginar). A palavra assombra-me desde então. Não tendo encontrando sítio para ser causa de efeito, ficou comigo.

 

“Barbárie? De facto, assim é. Dizemo-lo para introduzir um novo conceito, positivo, de barbárie. Senão, vejamos aonde esta nova pobreza leva o bárbaro. Leva-o a começar tudo de novo, a voltar ao princípio, a saber viver com pouco, a construir algo com esse pouco, sem olhar nem à esquerda nem à direita. Entre os grandes criadores sempre existiram os implacáveis, que começaram por fazer tábua rasa.” (Walter Benjamin em O Anjo da História)

 

Há actualidade no tema desde que se esconderam todos os sinais de jogo. Haverá mais urgência em tratar deste assunto se for para relembrar o sentido e a importância do jogo – se os indicadores de melhorias para a recuperação de um país já de si culturalmente complexo, situado à margem, apontarem para que cada um trabalhe mais e pior. Quando: jogar é o trabalho dos donos do seu tempo, com contribuição social impagável – retribuição social escandalosa.

 

(Jogo) A iniciativa de acção, de empreender tarefas inclassificáveis, incompreensíveis no uso imediato, resgata uma forma de vida – essa mesma de se dar a um prazer que se reconhece como essencial para si, para um grupo com quem se partilham afinidades e como devendo isso a um bando de espectros que nos acompanham historicamente – e que fizeram o mesmo por nós, antes.

 

O jogo implica-se definitivamente na biologia – nada é mais natural do que jogar (observem-se os animais) – e portanto, impõe-se a sua urgência. As condições (sociais, económicas, políticas…) são esquecidas à força de agir – ser capaz de desconstruir habilmente as inibições exteriores. O ser e o fazer inseparáveis – absorve-se o jogador no jogo e mais não faz do que ser artesão da sua própria vida.

 

2. De volta ao meu lugar: “A arte eterna teria as suas funções; assim como os poetas são cidadãos. A Poesia não ritmará mais a acção; ela estará na dianteira. Estes poetas serão! Quando for quebrada a infinita servidão da mulher, quando ela viver por ela e para ela, o homem – até aqui abominável –, tendo-lhe rendido a vez, ela será poeta, também ela! A mulher penetrará no desconhecido! Os seus mundos de ideias diferirão dos nossos? – Ela achará coisas estranhas, insondáveis, repugnantes, deliciosas, nós tomá-las-emos, nós compreendê-las-emos. Entretanto, exijamos aos poetas o que for de novo – ideias e formas. Todos os habilidosos pensariam rapidamente ter já satisfeito esta exigência. – Não é isso!” (Rimbaud em Cartas de um Visionário)

 

Jogo de palavras: ócio/o cio das fêmeas.*

A elas o domínio da Poesia, do jogo e da sabedoria. Que aproveitem todo o desejo de ócio, todo o seu prazer e êxtase, para, ao se deitarem nas ruínas dos antigos, nos mostrarem um novo mundo.

 

3. Um lugar a defender: ainda a auto-edição? A BF é um espaço de liberdade, esgotante e não esgotado. Estarei cansada de jogar este jogo? Cabem muitos jogos dentro deste “armário” (num do tipo Cabinet do século XVIII ou no espaço da antiga Loja de Chaves Alegria, o Navio Vazio). Devo dar-me tempo para renovar as regras e, quem sabe, entrar em mouvance (errância). [A edição como a “íntima transformação” de tudo o que connosco partilha a contemporaneidade: revejo-me em Rilke – “nós somos as abelhas do invisível. Nous butinons éperduement le miel du visible, pour l’accumuler dans la grande ruche d’or de l’invisible”.]

 

Procuro os apontamentos da viagem realizada a Glasgow para apresentar a BF (Novembro de 2010), onde escrevi: “perder tempo-recapitular-reflectir” e “é mais interessante falar com não especialistas”. Perante um grupo de alunos da GSA confrontei-me com a minha incapacidade de expor convenientemente o trabalho da BF – não havia tempo para nos demorarmos em divagações (o horário escolar impôs-se) e eu não fui capaz de fazer o resumo de um projecto vivo como se morto estivesse. Sem tempo para desperdiçar, não há BF. Sobre o segundo apontamento: os contextos profissionais são mórbidos.

 

4. Para qualquer novo Poeta (editor/artista/designer/oo), a dedicação a uma tarefa (ao trabalho de entrar no desconhecido) é sempre gratificante – se se desconhece esta verdade deve ouvir-se os mais experientes – os experimentados. Testemunho a minha recompensa com prazer, reconhecimento no encontro de novas amizades.

 

Penso que se terá já percebido que às questões práticas que a qualquer designer poderão interessar não serei capaz de lhes dar outra resposta. Não é ao negócio a que me dedico. É à Economia.

 

 

 

 

*Exposição a acontecer entre 2011 e 2012.

 

(1) Braço de Ferro – arte & design é um projecto editorial independente e auto-sustentado, coordenado pela artista Isabel Carvalho e pelo designer gráfico Pedro Nora, dedicado à criação de livros, sediado no Porto desde 2007.

 

 

 

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