À abelha, o dever da função; à flor, o seu íntimo prazer; o mel como um raio.

June 10, 2011

NV (L) Goes so slow, Harsh Patel.

No espaço do Navio Vazio foi recentemente apresentada e celebrada uma atitude que considero exemplar da auto-edição através da exposição das publicações do projecto Sister, de Harsh Patel. Tomei contacto com a sua actividade editorial e o respectivo desenvolvimento em diferentes projectos (Sister teve apenas a duração de um ano) através da entrada na listagem de participantes na feira do livro de arte de Nova Iorque (2009). Num contexto de abundância editorial que feiras como esta representam e perante o seu catálogo, Harsh sobressai, arriscando apresentar uma proposta essencialmente pessoal ao distanciar-se quer da posição de editor-Atlas quer do excessivo recurso à exploração da enorme variedade de possibilidades gráficas.

O conjunto das publicações que realizou é formalmente muito delicado: pelo cuidado na escolha dos papeis (essencialmente papeis de uso corrente, de baixa gramagem, com cores suaves e optando muitas vezes por reciclados), dos formatos (rectangulares, estreitos, ao alto), sem negligenciar aspectos tão secundários quanto o uso de agrafos ou o recurso a outras estratégias de agrupamento dos cadernos. As opções gráficas são restritas, recorrendo a poucas variantes no tratamento do texto e escolhendo uma paginação sóbria. O resultado simples de cada publicação potencia a unidade e a força do todo.

Os conteúdos com quais trabalha – essencialmente poesia – são pouco numerosos ou extensos. Uma alternativa interessante às publicações mais recentes, cujo excesso informativo (visual e verbal) se torna fastidioso e desencorajador e que, assemelhando-se a compêndios de textos essenciais para a formação do público geral sob uma perspectiva pedagógica, falham em promover o prazer intelectual do encontro com um novo objecto na sua força e simplicidade visual.

Contudo, sem retirar totalmente o mérito a estes programas editoriais – pois têm um valor e importância próprios que justificam o interesse de um público consideravelmente vasto no qual (por vezes) também me incluo –, estes não satisfazem o desejo de encontrar na coerência de propostas como esta um convite à exploração de outras leituras profundas através da profundidade do seu editor.

Harsh Patel é também poeta, e é através desta filiação que o posiciono. É o trabalho de transformação subtil de subjectivação que o torna interessante, uma vez que se confirma, na concretização dos seus projectos, a sua própria transformação interior. É esta que dá generosamente a conhecer ao público – o seu próprio processo e caminho em direcção à profundidade do encontro com as suas referências.

Em A escrita de si, Michael Foucault refere-se ao exemplo dos hypomnemata:
“Neles eram consignadas citações, fragmentos de obras, exemplos e acções de que se tinha sido testemunha ou cujo o relato se tinha lido, reflexões ou debates que se tinha ouvido ou que tivessem vindo à memória. Constituíam uma memória material das coisas lidas, ouvidas ou pensadas; ofereciam-nas assim, qual tesouro acumulado, à releitura e à meditação ulterior”. E sobre o papel do autor dos hypomnemata na re-escrita: “O papel da escrita é constituir, com tudo o que a leitura constitui, um ‘corpo’ (…) como o próprio corpo daquele que, ao transcrever as suas leituras, se apossou delas e fez sua a respectiva verdade: a escrita transforma a coisa vista ou ouvida ‘em forças e em sangue’ (in vires, in sanguinum)”.

É no princípio de constituição destes fragmentos que se enquadra o trabalho de Harsh Patel – não haver outro objectivo que não o de servirem para si em primeiro lugar. E é por isso que, assim, ao subverter o lugar que ocupa a comunicação (com o outro), se distingue da divulgação de um saber geral.

Harsh recorre à memória de referências que o acompanharam e a jogos a ela associados, despertando poetas antigos e associando-os, no mesmo catálogo, a poemas escritos por amigos seus (aos quais endereça o convite para escreverem poesia) e à sua própria produção poética. É essencialmente um trabalho de prazer (de afirmação) que se revela e se traduz no outro (público) do mesmo modo.

Assim, o seu trabalho resulta de um modo de operar menos conforme à conveniência da aceitação do que é dado, superficialmente, mas de acordo com uma resistência em procurar outros sentidos inesperados e provocá-los – um jogo em aberto que se traduz incessantemente neste e em todos os seus projectos que se encontram intimamente inter-relacionados. Recusando qualquer imediatismo informativo, apresenta, com força impregnada na simplicidade dos recursos usados, várias dimensões a descobrir.

Se historicamente entre autor e o editor persiste uma fricção de interesses (e seria interessante traçar e caracterizar o percurso desta relação e da divergência e convergência de objectivos na produção editorial), o exemplo de Harsh Patel é o da acumulação de ambas as posições na responsabilização e interiorização de todo o processo (como projecto) e na supressão de desacordos e (inevitáveis) cedências. Ou seja, reivindicar-se-á para Harsh Patel o papel de autor enquanto editor, tal como se impõe o seu discurso dentro da área da edição – transgredindo o que se entende por edição e mesmo auto-edição.

Na apresentação realizada no Navio Vazio pretendeu-se valorizar esta atitude. As publicações do projecto Sister foram dispostas sobre o padrão de uma colmeia pintada sobre um suporte cujo efeito se aproximava ao de um vitral. O padrão circundava todo o espaço, tornando-o, ilusoriamente, iluminado. Renovava-se a associação entre o trabalho do poeta e o da abelha (elemento presente e de significado constante em várias culturas e sociedades desde tempos remotos) que, roçando-se pelas mais diversas flores, lhes retira a riqueza do pólen e o transforma em mel. Do mesmo modo, o editor o faz na sua tarefa transformista. O mel, raio de luz que ilumina, porção de conhecimento, é a recompensa.

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