NAVEGAÇÃO ERRÁTICA DO LIVRO–SER–ESPAÇO

June 11, 2011

No início deste ano comprometi-me a alugar o espaço que abriga agora o “Navio Vazio”, seduzida pela sua configuração e pelas estreitas dimensões. Desde logo não tive nenhuma preocupação de propor um programa expositivo regular. O espaço manteve-se vazio, sem que sentisse urgência em ocupá-lo. A intenção era fazer dele um espaço que serviria para que nada acontecesse—descanso essencial à ideia de programação cultural, à necessidade de criação de uma grelha de eventos sequenciais, sem qualquer momento prévio de reflexão. Uma experiência que vinha no seguimento de Bar ocupado, cultura em potência, em que procedi à “inutilização” do bar dos funcionários do antigo edifício da RDP no Porto. No entanto, devido às dificuldades em suportar individualmente as despesas de um lugar “inútil” e, principalmente, por ter considerado ser chegada a altura de tomar uma decisão sobre o seu destino, acabei por propor a integração deste espaço no projecto da editora Braço de Ferro.

Procuraram-se então pontos de encontro entre objectivos—os meus e os da editora. A reunião de interesses ocorreu realmente com a percepção de que a entrada do “Navio Vazio” se assemelha à lombada de um livro estreito, e todo o espaço a um possível livro cujo conteúdo estaria por conceber, reunir e organizar. Foi então que nos pareceu claro que se poderia programar como quem edita e editar como quem programa. Justificou-se a necessidade de continuar com o lugar vazio, de modo a que fosse reflectida e ponderada a actividade e a razão de ser da abertura de mais um espaço dedicado às artes no Porto—como um navio que parte vazio e que se vai enchendo de experiências (e esvaziando de bens), repensando a cada momento a sua deriva.

A associação de um livro a um espaço, da qual partimos, pode causar alguma estranheza. Tal como, à primeira vista, pode parecer estranho (ou curioso) que, nos últimos anos, artistas, curadores, designers e editores/artistas integrem e venham a seguir atentamente a avalanche de eventos internacionais relacionados com livros em contextos de arte contemporânea. O livro aparece, então, como centro e motivo de reflexão. Com maior enfoque no conteúdo, na constituição do qual são recolhidas influências de várias áreas como a literatura, a ciência, o conhecimento especulativo, etc., do que na forma, que somente acompanha as necessidades conceptuais—e tornando-se, desse modo, ela mesma conteúdo.
A meu ver, podem esboçar-se algumas explicações, ou pelo menos organizar ideias, sobre o crescente interesse pelos livros, nem que seja para as desorganizar a seguir.

Apoiando-me na minha experiência pessoal, julgo que o que leva uma artista a interessar‑se por fazer livros, os seus livros, os livros dos outros, a gerir conteúdos, a fazer o papel de editora, a ter um espaço para gerir, é saber que tudo isso faz parte de um mesmo processo de gestão e produção de conhecimento. Há, naturalmente, especificidades no desempenho de cada uma desta actividades mas, no geral, as fronteiras esbatem-se.

Contribui para esta análise o entendimento do processo de trabalho artístico como investigação, ou seja, como trabalho intelectualizado, e nisto se aproxima de outras actividades—expandindo-se o campo de abrangência da arte, garantindo a sua renovação. Há, porém, outras duas explicações possíveis: a atitude contra‑poder e a fuga ao tédio. Se a palavra impressa legitima e acentua a relevância do conhecimento, o controlo dos meios de produção pelo artista desorienta o poder centralizado, reduzido a um núcleo de especialistas (!) que decide o que é, ou não, importante ler, saber, ver. O livro como possibilidade de acção sê‑lo‑á, principalmente, como preventivo de sonambulismo e entorpecimento generalizado—um exercício adverso à espera e à passividade.

O ciclo “Impossuível” surge assim como um segundo momento de reflexão em torno do livro. Neste caso, o ponto de partida foi a evocação dos livros para além da sua posse, da sua materialidade, fazendo principalmente uso da oralidade (prática em desuso) para lhes assegurar a presença. A disponibilidade de cada convidado para partilhar com os outros alguns dos seus livros possibilitou a construção de uma biblioteca imaterial e temporária de referências que se multiplicaram, de caminhos que se bifurcaram.

Com este ciclo não se pretendia chegar a uma conclusão sólida sobre o livro e a sua presença nos nossos dias, na arte contemporânea, no design, no campo editorial—precisamente porque o discurso oral é desviante e potencialmente equívoco—, mas somente revelar uma constelação de novas relações entre práticas, interesses e assuntos dispersos.

Esta “sebenta” serve como cristalização dos encontros, derivando directamente da experiência que foi o “Impossuível”, acrescentando porém mais sentidos (e complexidade) aos momentos vividos no espaço.

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