A prece da lebre

September 12, 2011

Pressinto, desde o primeiro número da “lebre”, que devo uma explicação sobre a raiz da escolha do nome para esta revista, pois reconheço que a partir dela se fará alguma luz sobre o caminho e destino da própria revista. Esta explicação servirá, enquanto registo, de ponto fixo e sólido, como um coágulo na corrente de produção de que faz parte. Na união de pontos, como este, se formará uma teia que arquitectará a memória deste projecto editorial, Braço de Ferro, como também fortalecerá as perspectivas do seu futuro.

Os animais não nos ensinam, mas nós, humanos, sempre os procuramos para com eles aprender – são-nos úteis por isso, para além da caça, do transporte e do desporto. A diferença está na deliberação: nós procuramo-los e eles são, neste aspecto, indiferentes a nós.

Desde tempos antigos, através das fábulas e das sucessivas actualizações que lhes foram feitas, de Esopo a La Fontaine, vimos os animais como figuras que transportam uma moral – os animais anteceder-nos-iam e mostrar-se-iam superiores a nós em sabedoria. Mas sempre que tivemos oportunidade de os contactar directamente, observar e mesmo confrontar o seu comportamento, revelou-se em nós não só o sonho de nos livrarmos dessa moral como de animalizar o nosso comportamento – vontade de desaprender para, seguida de um balanço, fazer escolhas ou reformular modos de vida.

Tomando como exemplo a fábula da “lebre e a tartaruga”. A tartaruga é desafiada pela lebre para com ela competir numa corrida de velocidade. A tartaruga é a vencedora e, por isso, modelo de virtudes: a perseverança e a constância. A lebre surge (a fábula é reescrita e contada com criatividade mantendo, contudo, o mais relevante) por vezes como tendo corrido, e outras como tendo também saltado e dançado, e ainda dormido. A lebre representa uma alegria de viver excepcional, punida, ao despertar, pela consciência (!) de ter perdido tempo e não ter alcançado a meta. Mas, suponhamos, que esse tempo não foi de modo algum perdido e, antes disso, sob um outro ponto de vista, que não existia sequer meta e que não havia nenhum desafio ou aposta entre os dois animais e os restantes animais da floresta. Nesse caso, cada um teria experimentado simplesmente o seu ritmo natural. E a lebre seria, como a tartaruga, vencedora do seu próprio destino como são todas as lebres e tartarugas e todos animais.

Ainda que essa consciência do tempo perdido a tivesse realmente atingido, a lebre não teria tido um desempenho diferente do que teve, porque a lebre não é a tartaruga. A lebre, dizem (não o pude comprovar), nasce de olhos abertos, tem pêlo, patas musculadas, orelhas grandes e é veloz, entre outros atributos, mas não é irresponsável (talvez vaidosa) como se quer fazer acreditar – porque é um animal, a sua única responsabilidade é saber sobreviver. Contrasta a fábula, inclusivamente, com várias outras interpretações que a têm como símbolo de sagacidade e de sabedoria.

A história de uma corrida só pode relacionar-se com o ritmo/tempo, e é um modelo de ritmo que é veiculado. Mas, como referi, quando não há metas, a sabedoria da lebre revela-se. A lebre é então marginal a um modelo que pressupõe fins definidos. O seu ritmo natural é variado e intenso, o que faz dele impopular por se associar um ritmo que se acredita, entre os humanos e na sua interpretação, ser improdutivo – como se os humanos não fossem, tal como os animais, diferentes entre si. A dificuldade entre os humanos no encontro de ritmos pessoais que os unam, assim como os separem e distingam, retirando esse peso de obedecer a um ritmo único e impositivo, agressor, leva-me a pensar nos ritmos animais e sobre se não poderemos aprender com eles novos ritmos que, quem sabe, se poderão adoptar como mais adequados às naturezas individuais.

Mal se aquietou a ideia de Dilúvio,
Uma lebre parou entre os sanfenos e as ondulantes campânulas e fez a sua prece ao arco-irís através da teia de aranha.
Oh! As pedras preciosas que se escondiam – as flores que já olhavam”
Iluminações, Artur Rimbaud.

A raiz que se procurava, de início, não era a fábula da “lebre e a tartaruga”. O nome surgiu de jogos com as palavras e dessas combinações absurdas que partem dos sons.

No entanto poderia ter sido, e por ser tão possível que esta tivesse estado lá, algures escondida, naquele momento de nomeação, permitiu-me aceitá-la e nela me concentrar.

Durante o tempo decorrido, o nome “lebre” não significou nada. Foi somente a imagem de uma palavra escrita e um som que lhe correspondia. E, mais do que isso, era um ritmo de desenvolvimento, e foi através dele que as duas se podem agora relacionar: correndo e dançando numa direcção estranha ainda sem meta definida, dedicando-se também a longas pausas de sono profundo, de lentidão acentuada, de semi-morte (a lebre que pára, a lebre morta de Joseph Beuys), revelando nisso a sua sabedoria.

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