O que é que se faz a uma figueira?*

October 2, 2011

Este texto aproveita do texto publicado anteriormente (“À Abelha, o Dever da Função (…) O Mel como um Raio”, NAVIO VAZIO Nº1, Maio de 2011) alguns apontamentos dos quais surgiu sem contudo os ter desenvolvido. Estes apontamentos foram sendo registados com o objectivo de afirmar um compromisso, o da edição – repetidamente esquecido, recusada a sua importância por longos períodos de tempo, surgindo sempre, revitalizado, no espaço reduzido de uma biblioteca em encontros de abafada paixão. Esses encontros foram procurados pela carência de exemplos que acabaram por emergir entre linhas, acanhadamente: The Little Review e Hogarth Press.

The Little Review, uma revista sediada em Nova Iorque, foi por muito tempo apenas uma (muito) pequena referência do início do século XX associada ao Surrealismo e ao Dadaísmo, dedicada à literatura e às artes. A sua primeira editora, Margaret Anderson (1886–1973), foi recuperada no final dos anos noventa do século passado pela história e crítica pós-modernista associada ao movimento feminista, tendo no entanto que esperar mais de uma década para a encontrarmos fora do ténue retrato de mulher homossexual e anarquista. Era necessário um (novo) contexto para uma recuperação mais completa de si e, em consequência, do seu projecto. Margaret Anderson era editora quando ainda não havia espaço para o estudo da edição como actividade merecedora de interesse em si mesma. Ainda hoje, o seu nome tende a emergir apenas pela relevância que teve para que muitos escritores modernistas fossem reconhecidos, permanecendo em falta um enfoque realmente atento ao que foi o seu trabalho de edição – a sua orientação editorial – no que teve de realmente único (e Moderno).

Dois anos depois da fundação de The Little Review, Jane Heap juntou-se ao projecto, formando com Margaret uma equipa editorial entre 1916 e 1925. A combinação da energia das duas foi motor de um projecto de enorme notoriedade (sublinhando a indignação perante a negligência histórica a que foi votado), não cabendo aqui, contudo, distinguir as funções que cada uma teve no processo de The Little Review por falta de documentação que fundamente qualquer certeza a esse respeito. Encontram-se, porém, referências que é a esta editora, Jeane Heap, que se deve a preocupação com o aspecto visual (e a integração de artistas como Brancusi, Picabia, Duchamp, entre outros) nos últimos anos da revista, depois de ter ficado unicamente à sua responsabilidade. Sem dúvida, é de salientar não só o próprio experimentalismo gráfico, como, e consequentemente, a abertura à poesia concreta – aproximação radical da literatura à arte, e vice-versa, numa entrega ao questionamento dos seus limites.

O ambiente criado pelas duas (juntando-se-lhes ainda Erza Pound como editor adjunto e correspondente europeu, que viu neste meio, nas suas palavras, exactamente o que procurava para si) através da rede de contactos que estabeleceram com os seus contemporâneos foi fortemente estimulador da produção literária e artística, como e ainda da produção crítica – função principal desta revista, de acordo com a declaração de intenções de Margaret: “Criticism that is creative – that is our high goal. And criticism is never a merely interpretative function; it is creation: it gives birth!” –servindo a revista de espaço de discussão acesa e fecunda como nos séculos XVII e XVIII tinham servido os “salões” (ou salons) na intimidade do lar aristocrático e burguês. A aproximação deste projecto à energia vivida nos “salões”, e a sua dinâmica associada a uma figura central, uma mulher intelectual, é reforçada pelas constantes declarações – “statements” – de Margaret desde o primeiro número de The Little Review (“And now that we’ve made our formal bow we may say confidently that we take a certain joyous pride in confessing our youth, our perfectly inexpressible enthusiasm, and our courage in the face of a serious undertaking; for those qualities mean freshness, reverence, and victory! At least we have got to the age when we realize that all beautifull things make a place for themselves sooner or later in the world. And we hope to be very beautiful!”, 1914). A edição como exercício de diálogo que ocorre num espaço – o do “salão” – não difere essencialmente do que ocorre num livro ou revista. Margaret era desta opinião: “If I had a magazine I could spend my time filling it up with the best conversation the world has to offer… marvelous idea – [?] salvation”, s.d.).

A importância que Margarette e Jane tiveram na cultura da sua contemporaneidade terá paralelo no projecto do casal Woolf – Virginia e Leonard – e e da Hogarth Press. Como editores, os quatro têm perfis distintos, tão distintos (porque fortemente individuais) que procurarão exercer a edição no âmbito dos seus interesses particulares – por esse motivo, é arriscado associar os dois projectos, esta análise limitar-se-á ao que têm em comum.

Ulisses, de James Joyce, é um primeiro ponto de ligação: o livro que a Hogarth Press não quis publicar e que encontrou lugar na The Little Review, sendo a razão pela qual Margaret e Jane viram o seu projecto ameaçado. Maragaret defendeu-o ferozmente perante a lei da censura; Virginia, não só desprezou a sua importância como se mostrou irritada com o estilo literário de Joyce, ainda que seja possível analisar tantas afinidades entre os dois escritores.

A Hogarth Press (1946/1969) foi uma empresa gráfica (!) fundada por Virginia e Leonard Woolf, autores dos textos, editores, impressores, distribuidores, gestores, etc. A edição foi uma parte significativa do que se propuseram fazer, mas que rapidamente sorveu todas as componentes processuais, tornando-se a edição precisamente a totalidade de todo o processo. Se a edição é entendida, essencialmente, como a gestão de conteúdos para lhes dar uma forma gráfica, eles aproximaram-se de uma edição igualmente preocupada em gerir conteúdos não apenas textuais, mas também formais como conteúdo: (por exemplo) a experiência visual e material do texto na composição dos caracteres, à qual Virginia se entregou como forma terapêutica (preocupação que teria dado origem à Hogarth Press), terá contribuído para a construção do seu estilo como escritora – sem dúvida inovador, Modernista.

A Hogarth Press, tal como a The Little Review, foi um projecto amador, de caminhada em campo estranho, desconhecido, de amantes de material impresso, de livros, de leituras, de bibliotecas, de livrarias, etc. E ainda que em The Little Review se reconheçam desde cedo as orientações, os dois projectos foram-se construindo dentro de uma grande flexibilidade, com poucas cedências às exigências externas, nomeadamente de público e mercado. Aliás, como deixou claro desde cedo Margaret: “[…] making no compromises with the public taste”.

O que faz de ambos os projectos exemplos interessantes de uma edição auto-reflexiva, dedicada e verdadeiramente influente foi certamente o risco que só os amadores correm ao enveredar por caminhos mal iluminados e a seriedade com que o fizeram. Contudo, foi essencialmente a escala reduzida que lhes conferiu agilidade para se movimentarem com a maior liberdade. A história conhecida de Hogarth Press e The Little Review foi a do colapso no crescimento da sua actividade e na consequente dispersão a que rapidamente estes projectos chegaram. Numa carta enviada a Vita Sackeville-West e datada de 1925, Virginia escreve: “Estou esmagada por manuscritos. Edith Stiwell, dezenas de poetas; um homem que se põe a dissertar sobre o controlo dos nascimentos. Um outro sobre a religião, em Leeds; sem falar das Obras Completas da Gertrude Stein, que me ponho a folhear com as pontas dos dedos sem sequer ler um linha.”

Ao editor guia-o a excitação de ampliar e renovar criativamente o espaço dos livros e revistas existentes nas prateleiras de uma Biblioteca Total (como se existisse alguma e essa não fosse em si suficiente, sendo o seu alargamento uma missão desejável através da intrusão de material marginal ainda), no diálogo que mantém com toda a história do material impresso. (Michel Foucault, em a “Febre da Biblioteca”, chamar-lhe-á uma tentação, como a que sofreram Sto. António e Bouvard e Pecuchet.) Mas com o alargamento da escala chegará um momento em que esse diálogo/essa excitação é vencido/a – como se com o peso tombassem os móveis que suportam as prateleiras. Ter-se-á, então, atingido um limite, deixando o editor de se movimentar num jogo relativamente organizado e livre para passar a experimentar um jogo caótico, inclusivamente paralisante. Tanto Virginia como Margaret manifestaram nos seus escritos pessoais (cartas e diário, respectivamente), numa fase mais tardia dos seus projectos, cansaço e desânimo.

Esse peso que sente o editor quando já não consegue integrar em si e como seu tudo quanto lhe surge através de estratégias que lhe sejam convenientes, não é só o resultado de ter desejado demasiado para além do seu alcance como o também de ser ultrapassado, pelas expectativas do exterior, nos seus desejos. Denis Diderot argumenta – pouco depois de expor o papel e as funções do editor na entrada da Enciclopédia com o mesmo título – que para a Enciclopédia, esse projecto de edição infinita, voraz e insaciável, ser perfeita, era necessário que cada um dos seus autores fosse editor dos seus próprios artigos – o que tornaria todo o processo demasiado lento. Ora, Diderot caracteriza assim a figura do editor ideal – que não podia ser o enciclopedista. (Seria o editor ideal de um enciclopedia um editor igualmente infinito e apenas projectado aí?)

É à edição de síntese, através de estratégias ou processos que ajudem a fazer convergir sempre para dentro do editor como autor de uma selecção dos conteúdos que publica, que aqui damos lugar, assim como ao elogio da lentidão de deixar que os conteúdos encontrem a sua relação entre si e produzam eles mesmos um projecto editorial singular.

The Little Review, pode traduzir-se como “Pequena Revista” e Hogarth era o nome da residência há pouco adquirida por Virgina e Leonard. É surpreendente a forma como se pode estabelecer uma relação entre os nomes escolhidos e a tarefa da edição. A pequena escala da estrutura da revista nova-iorquina contrasta com a forte e surpreendente importância que teve no meio literário. E o espaço doméstico de Virginia revela-se como se todo o universo de possibilidades de todos os futuros livros estivesse ali prestes a nascer entre a decoração de um “salão” inglês.

* “Gosto do teu lado fecundo. Sem a mínima dúvida, no decurso destes últimos dez anos, ou quase, desbastaste, podaste, plantaste de estaca – o que é que se faz com uma figueira? – e o resultado é que, por vezes, te acontece escrever de um modo demasiado semelhante a um cavalo de corrida que foi a um tal ponto treinado que a sua cauda é quase igual à de um rato, e os seus flancos iguais a um mapa de relevo dos Alpes.”

Woolf, Virgínia, Cartas íntimas a Vita Sackeville-West, trad. Ana Fontes, Sintra, Colares Editora, 1994.

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