À boca da barra, se perde o navio

August 13, 2008

Existe entre a arte e o poder político uma relação de interesse e importância recíproca. É precisamente nas oportunidades de as duas partes se aproximarem que se tornam evidentes as estratégias de ambas para retirarem daí o maior proveito e alcançarem os objectivos que lhe são inerentes. A tradição de ambas confirma as vantagens em termos genéricos do que daí resulta, no entanto, revela também os erros cometidos e repetidos no passado, que por vezes, se sobrepõe, a longo prazo, ao que de positivo se conseguiu. Ou seja, arrisco-me a dizer que o eventual resultado final possa ser um empate, não ganha ninguém.

No dia dedicado à comemoração oficial do dia de Portugal e de Camões, foi inaugurada uma exposição encomendada pelo Estado Português (Museu da Presidência), que contou com a participação de umas dezenas de artistas portugueses que estiveram “lá fora” temporariamente ou que por lá ficaram. Ora o que realmente se estava a celebrar era a emigração artística, sem qualquer pudor ou reflexão, e a impossibilidade de um país. O convite da exposição pode ser entendido como um bilhete para os jovens artistas, com expectativas de tornarem o seu trabalho visível, para apanharem o próximo avião para Berlim, Paris, Londres, Nova York – porque, definitivamente este não é um país para se viver e trabalhar. A presença do Presidente da República sublinha a contradição, ou mesmo erro, na sua estratégia de união entre poder político e arte, ao reconhecer que falhou em não promover um ambiente propicio à existência de uma cena artística sólida e interessante o suficiente para se tornar, eventualmente um centro, ainda que pequeno, capaz de chamar atenção pela cultura que tem. E este erro de estratégia têm-se repetido de tal forma que passa despercebido, já ninguém dá conta, quanto mais não seja porque o evento está revestido de um certo carácter festivo e a concentração dos media e da opinião pública, até agora, está no dia em si e no seu significado e na figura do Presidente – seria pouco patriótico pensar que se poderia tratar de erro de estratégia e até de negação de pátria.

Por oposição, no Reino Unido a estratégia é realmente eficaz e funciona a vários níveis, sem que seja, no entanto muito complexa – aliás é bastante simples e importável. Um Young British Artist continua a ser o cartão de visita do país e sem qualquer dúvida, a moeda de troca, mas não só no âmbito cultural – veja-se a influência que ainda tem a nível económico. O jogo difícil entre o poder e os artistas, escolhidos pelo sistema como representantes que a isso se sujeitam, a si e à sua carreira, torna-se vantajoso para o próprio país e para a localização deste no panorama da arte contemporânea, mas mais uma vez, isto já vem da tradição.

Mas falar de artistas individuais e fazer uso do contexto inglês apenas ajuda a tornar a situação mais clara, uma vez que é um dos exemplos mais evidentes, porque a instrumentalização da arte pelo poder e vice versa, tem sem dúvida melhores exemplos em eventos colectivos, de grandes dimensões, em lugares estrategicamente escolhidos: principalmente em bienais e em eventos semelhantes.

Já o “Allgarve” a sul do Tejo, este ano na segunda edição, com características de proto-bienal, é marcado por uma estratégia adequada aos tempos modernos ao reclamar para a região do Algarve visibilidade, tornando-se um sítio apelativo para o investimento internacional. A captação do turismo tornou-se insuficiente mediante os planos de desenvolvimento da região e apenas o prestígio atestado pelo Museu de Serralves consegue satisfazer os desejos mais sofisticados dos grandes investidores mundiais que não se ficam pelo sol e mar. O “Allgarve”, distingue-se do “lá fora” por promover o local e integrá-lo no global, demonstrando o potencial do que este pode vir a ser, criando expectativas económica e culturais. “lá fora”, não só despromove o local como confirma o vazio sentido de que aqui “não se passa nada”.

Ainda é sob uma aparente ausência de interesse mútuo que a arte e o poder são entendidos mesmo quando isso é evidente como nestes dois casos. No entanto, tal como disse no início, a relação existe e é um facto, que por vezes é bem conseguida enquanto resultado alcançado e outras vezes não. A instrumentalização de uma pela outra é uma inevitabilidade da actualidade e segue a lógica do mercado. O que é preciso é saber jogar e aqui o papel do negociador, a quem a encomenda foi entregue – o curador, é saber fazê-lo entre os vários interesses de forma inteligente e não se perder na bajulação do poder por si mesmo.

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